Deepfake, um novo tempo e espaço

vasto, falso e profundo

No mundo do deepfake, tempo e espaço ganham um novo sentido. Confira como essa tecnologia de sintetização de áudios e vídeos pode mudar as relações na moda e em outras áreas.

POR THIAGO ANDRILL
ILUSTRAÇÕES VICTOR AGUIAR MAGALHÃES

A partir do nascimento, uma pessoa entende a existência de três dimensões: altura, largura e profundidade. Depois, uma quarta é percebida: o tempo. E assim caminha a humanidade. Até quando, não se sabe. Na era da realidade aumentada, dos avatares e do metaverso, essa interação com o mundo está ficando um tanto mais diversificada. E o deepfake vem para mexer de vez com a estrutura temporal e com as definições de passado, presente e futuro.

Com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial, fonemas e imagens em movimento de uma pessoa servem de insumo para novas vivências. Personagens fazem e dizem coisas que nunca aconteceram, ao menos fisicamente. Interagem com quem morreu ou com ídolos até então inalcançáveis. Beyoncé no vídeo do almoço de domingo de sua família? Por que não? Com alguns dos vários vídeos da cantora disponíveis online, que mostram seu rosto e corpo, uma base de dados é criada e a sua imagem sintetizada. O mesmo em relação à fala.

Em Diários de Andy Warhol, série documental da Netflix, áudios do artista que morreu em 1987 foram utilizados para construir uma “nova voz” – a dele mesmo –, que narra os episódios. Já em uma campanha de 2018 da rede de varejo online Zalando, a modelo Cara Delevingne apareceu em 290 mil pontos digitais, com uma assombrosa variedade de poses e áudios, graças ao deepfake. Com base nas imagens e na captação de fonemas de Cara, o projeto rendeu um material muito mais vasto do que seria possível obter em um ensaio tradicional.

Como se vê, o deepfake pode ser um prato cheio para a moda. E o mercado está fazendo seus experimentos. Um dos mais emblemáticos foi o desfile de primavera 2022 da Balenciaga, batizado de Clones. Na apresentação, modelos simularam o jeito de andar da pintora Eliza Douglas e tiveram o rosto da artista digitalmente aplicado sobre a face. O resultado foi uma sucessão de Elizas desfilando na passarela, numa intrigante confusão entre o real e o fictício, bem ao gosto do estilista da marca, Demna Gvasalia.

No Brasil, a agência Fbiz, que trabalha com iniciativas de deepfake, entre outras, realizou um estudo sobre as possibilidades de utilização dessa tecnologia na moda. A otimização de editoriais e campanhas publicitárias e a hiperpersonalização do serviço de assistentes virtuais foram identificadas como pontos promissores. E mais: essa abertura para produzir conteúdos e materiais de comunicação com maior diversidade de modelos, poses e cenas pode aumentar a competitividade de pequenos empreendedores em relação às grandes marcas. “A construção de imagem será menos exclusiva a investimentos pesados”, acredita Fernand Alphen, CEO da Fbiz.

A aceleradora Adventures, que tem como um de seus pilares o lançamento de marcas por meio de campanhas com influencers e aporte tecnológico, já utiliza o deepfake em diferentes ações. “Algumas aplicações foram feitas para gerar imagens e sons que não existiam previamente, todas baseadas em sondagens e gravações”, explica Conrado Caon, CTO da empresa. A tecnologia também é uma mão na roda para solucionar imprevistos. Como no projeto da Adventures para a Domino’s Pizza, no qual o usuário fazia o pedido por um sistema de interação vocal com a cantora Jojo Toddynho. Na época, Jojo estava confinada no reality show A fazenda e não tinha como gravar algumas frases complementares. Com base em materiais captados anteriormente, áudios com sua voz foram sintetizados.

No entanto, assim como causa empolgação, o alcance do deepfake também é motivo de temor para muita gente – especialmente em um ano de eleição que tem as redes sociais como o maior campo de batalha. Em outra análise realizada pela agência Fbiz, com foco no que os brasileiros falam sobre essa tecnologia em 2022, termos como “impressionante” e “incrível” aparecem ao lado de “alerta”, “estrago” e “enganar”.

Na indústria pornô, uma das mais ligeiras para incorporar novas tecnologias, conteúdos audiovisuais com atrizes de Hollywood foram criados com deepfake sem autorização prévia. Para o bem ou para o mal, o recurso está cada vez mais acessível. Há inclusive aplicativos, como o FakeApp, que permitem a elaboração de vídeos com a troca de rostos.

Na opinião de Bruno Sartori, jornalista e maior referência de deepfaker no Brasil, o cenário não é tão assustador. “Vejo mais alarde do que algo com que se preocupar. É muito difícil, tecnicamente, atingir o nível de perfeição que leve alguém a acreditar, sem dúvidas, que algo é original, e não sintético. Existe o que chamamos de ‘vale da estranheza’.”

Sartori explica que é difícil preestabelecer todos os componentes desse “vale”, já que dependem da maestria do operador responsável em cobrir os rastros. Porém, em alguns conteúdos não profissionais feitos com o objetivo de enganar, elementos como sobrancelhas duplas, dentes mais embaçados e rostos com foco destoante podem ser percebidos.

“Além disso, uma pessoa demoraria uma semana para fazer em casa o que eu construo em uma hora no meu computador. GPUs (placas de vídeo) caseiras são muito lentas para esse processo. Isso dificulta, pois é necessário um hardware caro e conhecimento técnico”, explica ele, que recentemente trabalhou em um projeto para a Samsung, com a agência Fbiz, no qual a apresentadora Maísa interage com a sua versão criança. “Costuma se enganar mais facilmente com uma fotomontagem, algo bem disseminado, do que com um deepfake, que demanda muito mais.”

Legisladores ao redor do mundo estudam medidas para assegurar a produção não exploratória desses áudios e imagens. No Brasil, a legislação digital se restringe ao Marco Civil da Internet e à Lei Geral de Proteção de Dados. O Estatuto da Criança e do Adolescente pune a montagem de menores em cenas pornográficas. E o Código Penal tem um mecanismo de proteção para quem é maior de idade, enquanto o Civil possibilita que uma pessoa interrompa o uso de sua imagem sem autorização.

Recursos tecnológicos são compostos de equações matemáticas, que podem carregar intenções, porque alguém as construiu. Porém elas em si não possuem uma ética, opina Olivia Merquior, fundadora do Brazil Immersive Fashion Week (BRIFW), a primeira semana de moda imersiva e digital do país. Vai de quem as utiliza e com qual objetivo. Qualquer invenção no setor de comunicação, pondera ela, é desdobramento de uma estratégia humana básica: passar mensagens e convencer. E, é fato, enganar sempre foi possível, mesmo quando a oralidade era a principal técnica de transmissão de informação. “Os sofistas, filósofos da Grécia antiga que criaram o conceito de ‘sofisticado’, falavam coisas que não necessariamente tinham nexo, mas o intuito de convencer pela beleza do discurso”, pontua Olivia.

Para a criadora da BRIFW, aproximar as pessoas das novas tecnologias – por meio da moda, por exemplo – é um caminho para que elas entendam as inovações e saibam como usá-las a seu favor. “O melhor antídoto para qualquer distopia é o conhecimento”, afirma. “Uma geração mais jovem já está preparada para não confiar em tudo que vê, entende que precisa de outros canais e mecanismos para atestar a credibilidade.”

Outra preocupação frequente despertada pelas novas tecnologias é em relação ao impacto neurológico que essa mudança na percepção da realidade poderia ocasionar. Segundo Nathalia dos Anjos, especialista em neurociências e comportamento pela PUC-RS e coordenadora dos cursos de moda e beleza do Senac Lapa Faustolo (São Paulo), não há motivo para aflição. “Essa preocupação sempre existiu, mas o cérebro é altamente plástico, se adapta”, afirma. “Com a invenção do cinema, as pessoas achavam que o trem na tela as atropelaria”, lembra ela.

Quer dizer, tudo leva a crer que nosso cérebro é esperto o suficiente para poder curtir experiências imersivas antes inimagináveis, como o exemplo de Olivia Merquior: sentar com Coco Chanel em um café e escutá-la comentar sobre o impacto das calças para as mulheres em Paris, no início do século 20.

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Fonte: Sociedade DeepFake, Revista Elle .